“‘Olha, Brasil, ele não é brasileiro’: Silvia Waiãpi chama Furlan de traidor e denuncia exclusão de seu nome da nominata durante convenção do PL”
A ex-deputada federal Silvia Waiãpi afirmou nesta segunda-feira (20) que estaria sendo retirada da nominata de candidatos do PL durante a convenção do partido realizada em Macapá.
A repercussão do caso mobilizou apoiadores da ex-parlamentar nas redes sociais, onde internautas e lideranças políticas passaram a apontar o episódio como um possível caso de racismo, misoginia e machismo contra uma das poucas mulheres indígenas identificadas com a direita e o bolsonarismo no Amapá. Silvia ocupou cargo no governo do ex-presidente Jair Bolsonaro e mantém proximidade política com Bolsonaro e a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro.
Em um primeiro vídeo publicado nas redes sociais, Silvia questiona os critérios adotados pelo partido e afirma que estaria sendo preterida.
“O que é que eles estão fazendo? Um candidato que não é brasileiro tem prioridade quando ele está respondendo processo na Justiça que ainda não transitou em julgado. E eu, mulher indígena, que também tenho processo na Justiça que ainda não transitou em julgado, não tenho direito”, declarou.
Na sequência, ela reforça a crítica. “Então eles preferem dar direitos a um homem que não é brasileiro para tirar o direito de uma mulher indígena.”
A ex-deputada estaria se referindo ao ex-prefeito Antônio Furlan, que nasceu na Costa Rica. Furlan responde a ações na Justiça Eleitoral e na Justiça comum e recebeu o apoio do PL, que decidiu formar aliança com o PSD para a disputa ao Governo do Amapá. O ex-prefeito nega as irregularidades que lhe são atribuídas nos processos em que é citado.
Já em um segundo vídeo publicado nas redes sociais, Silvia Waiãpi grava o momento em que Antônio Furlan iniciava seu discurso durante a convenção do PL.
“Olha, Brasil. Ele não é brasileiro. Ele não é brasileiro, mas eles podem coligar. Mas eu, uma mulher indígena, não tenho direito na minha própria terra”, afirma, enquanto mostra Furlan no palco.
As declarações repercutiram rapidamente nas redes sociais, onde a ex-deputada recebeu manifestações de apoio de apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro e de militantes identificados com a direita.
Em outro trecho da gravação, Silvia dirige novas críticas ao ex-prefeito. “Traidor. Traição eu não perdoo! Você sabe. Foi você que me tirou da nominata.”
Na fala, Silvia faz referência ao fato de Furlan ter nascido na Costa Rica e sugere que ele teria influência nas decisões internas do PL sobre a composição da nominata.
Segundo informações apuradas pelo Portal Amapá, integrantes da legenda atribuem a Furlan participação nas articulações políticas do PL no estado. Entre elas estaria a negociação para a indicação de Luciana Gurgel como pré-candidata a vice em sua chapa, além da influência na definição de nomes que disputarão vagas para deputado federal e estadual.
Nos últimos meses, Furlan filiou ao PL diversos ex-integrantes de sua gestão municipal. Nos bastidores, a estratégia atribuída ao grupo político seria fortalecer a nominata da legenda nas eleições proporcionais e ampliar as chances de eleger candidatos do partido.
Silvia Waiãpi já havia protagonizado disputas internas pelo comando do PL no Amapá ao lado da ex-deputada Sonize Barbosa, em embates com o grupo liderado pelo deputado federal Vinicius Gurgel.
Cotas eleitorais entram no centro da disputa
Além de denunciar sua exclusão da nominata, Silvia sustenta que sua retirada comprometeria a participação de mulheres e de uma liderança indígena na composição das candidaturas do partido. A legislação eleitoral estabelece regras para incentivar a participação feminina nas chapas proporcionais, incluindo a reserva mínima de 30% de candidaturas de cada sexo, bem como critérios para a distribuição proporcional dos recursos do fundo eleitoral destinados a mulheres e pessoas negras.
As declarações da ex-deputada também levantaram debates nas redes sociais sobre eventual discriminação contra mulheres e indígenas no processo de definição das candidaturas. Até o momento, não há decisão da Justiça Eleitoral ou de outro órgão competente reconhecendo qualquer irregularidade ou prática discriminatória por parte do PL.
Até o momento da publicação, Antônio Furlan, Vinicius Gurgel e a direção estadual do PL não haviam se manifestado sobre as declarações de Silvia Waiãpi. O Portal Amapá mantém o espaço aberto para manifestação dos citados.